Nunca fui ao Rio, mas o governo de Medellin parece difícil de bater no quesito espetacularização da favela, com seu teleférico high-tech integrado ao metro. Foi o primeiro lugar que nos recomendaram no principal posto de informação turística da cidade. "Mas não saiam da estação", nos alertaram, apesar das placas que garantem que o local é seguro.
Os turistas embarcam no teleférico pra brincar de voyeur da pobreza, indo e voltando na cápsula segura de vidro, sem botar os pés no local. Desempenhamos o papel à risca, com nossas DSLRs e cara de estrangeiro.
A diferença entre a potable e a no potable é que uma te dá dor de barriga enquanto a outra te mata na hora.
Essa mulher pediu preu pendurar flores num túmulo. Era difícil, porque o buquê era maior que o espaço da "gaveta", e as flores se despedaçaram na minha mão. Quando tentei consertar a merda, bati com minha cabeça na gaveta de outro túmulo, que caiu e se despedaçou. A mulher ficou extremamente aliviada quando a Mitsue assumiu a função, antes que eu destruísse metade do cemitério.
Só vi essa moça me soprando um beijinho quando baixei a foto no PC. Não dá pra não interpretar como um gesto irônico, perfeito. E não deixa de ser significativo o fato de eu não ter percebido no momento, enquanto tava turistando, apesar dela passar bem na minha frente.
Porra, vai buscar outro homem ao invés de ficar prostrada no túmulo do ex buscando consolo em jesus.
Me senti jogando Sim City, vendo as pessoas pequeninhas seguindo suas vidas abaixo, crianças brincando, jovens nadando num poção, mulheres estendendo roupas na varanda. Filmei a maior parte do trajeto, e confesso que deu uma vontade de fazer um documentário de cinema direto estilo Wiseman... passar um mês subindo e descendo de teleférico só observando e registrando aquele espaço.
Os idealizadores do projeto argumentam que o teleférico e a biblioteca futurista que ergueram no topo do morro "dão dignidade" aos pobres, além de ser uma boa solução de transporte público para o terreno. Pessoalmente, eu não me sentiria mais digno sendo bisbilhotado por gente sobrevoando em cabines transparentes toda hora.
O teleférico passa muito próximo ao chão em vários pontos e é possível ver o interior de muitas casas no caminho. Esse artigo baba-ovo menciona como o projeto usou conceitos arquitetônicos pra "coibir o tráfego de drogas" em zonas perigosas. Foucaultianos devem se divertir analisando esse sistema.

Engraçado pensar que, se fizeram uma biblioteca bonita na favela, os pobres que a frequentam aprenderam a ler nas escolas construídas por Pablo Escobar.
Festival de contrastes fotogênicos!